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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Espiadinha

Claro que as esculturas masculinas não resistiram a beleza da fêmea retratada.

Dúvida

Ela saiu despida andando pela ampla varanda  da casa   que estendia-se até a beira do mar. Mas o céu estava esquisito, borrado de vermelho com manchas de ruge, seria amanhã um novo dia radioso de luz, ou o prenúncio de algo assustador que estava por vir.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

TEM UM OUTRO EU EM ALGUM LUGAR?



Para os autores de ficção, desde Jorge Luis Borges e seu conto clássico "O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam" até episódios da telecinessérie Jornada nas Estrelas ou o recente filme A Bússola Dourada, o tema dos universos paralelos exerce um eterno fascínio. Afinal, quem resiste à ideia de que, num outro plano, pode existir um outro eu vivendo uma vida diferente desta aqui? O que muita gente não sabe é que a hipótese não se restringe à ficção: a ciência anda namorando-a há um bom tempo e leva-a cada vez mais a sério.
Como não poderia deixar de ser, a área científica que aloja essa ideia é a física quântica - aquela que estuda as leis do mundo subatômico, as quais reduzem tudo a probabilidades e cujas esquisitices incomodaram ninguém menos do que Albert Einstein. Os mundos paralelos emergiram na academia como solução a uma das charadas quânticas mais conhecidas: a do gato de Schrödinger.
Nesse desafio, criado pelo físico austríaco Erwin Schrödinger em 1935, um gato é colocado numa caixa selada com um contador Geiger, um frasco de veneno e um átomo radiativo que tem 50% de chance de desintegrar dentro de uma hora. Se o átomo se desintegra, o contador Geiger percebe e aciona um mecanismo que quebra o frasco de veneno, levando o gato à morte. De acordo com a teoria quântica, ao final daquela hora o átomo deve se encontrar num estado superposto de desintegração e de não desintegração. Ou seja: o gato está ao mesmo tempo num estado insólito, tanto de vivo quanto de morto.
Schrödinger propôs seu enigma como uma forma de sublinhar como a teoria quântica pode desafiar o senso comum. De fato, como alguém pode estar vivo e morto ao mesmo tempo? Os cientistas puseram suas mentes para trabalhar no assunto e, de início, pensou-se que a solução era forçar o mundo quântico a decidir-se por uma das soluções, abrindo a caixa e observando seu conteúdo. Essa solução é conhecida como interpretação de Copenhague - a opção considerada pelo físico dinamarquês Niels Bohr que destaca o papel do observador do fenômeno. Detalhe frágil dela: os pesquisadores teriam de monitorar o tal gato por uma hora.
Em 1957, o norte-americano Hugh Everett III, então aluno da Universidade de Princeton, propôs uma nova perspectiva para o enigma. Segundo ele, a matemática da teoria quântica realmente descreve a realidade e, se suas equações desembocam em resultados diferentes, todos eles podem ser concretizados em algum lugar. A pergunta óbvia, nesse caso, era: onde?
Até aqui, tudo bem, mas como um outro eu em algum lugar utiliza minha consciência sem meu conhecimento? Segundo Einstein um corpo não pode ocupar dois espaços ao mesmo tempo, ou será que pode? Em uma outra dimensão? Eles desconfiam que existem 11 dimensões desconhecidas.Na verdade a teoria do Big-bang até aqui aceita, acaba de ir pelo ralo, no momento em que se afirma que o big-bang pode ter sido cusado pelo choque entre universos paralelos. Einsten não gostava da física quantica e tinha razão, afinal ela leva sempre a outras hipoteses, não à um resultado final. Então tudo o que sabíamos ou pensávamos saber, não vale nada. Na verdade não sabemos nada. São teorias e mais teorias desbancadas pelas novas teorias.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

INCONSCIÊNCIA



Ele acordou sentado, na cadeira de palha que havia em seu quarto e não sabia explicar o que fazia ali. O quarto ainda escuro mal deixava perceber o ambiente, ainda era madrugada e o dia mal dava sinais de um amanhecer. Sentia uma espécie de torpor e sua cabeça parecia envolvida por uma estranha sensação de pressão e não conseguia coordenar as idéias. Percebeu que sua esposa ainda dormia. Olhava em volta tentando acostumar os olhos com o ambiente escuro e sentia uma sensação de vazio. Não conseguia lembrar-se de nada, nem sequer de como havia ido parar ali, sentado naquela cadeira. Aos poucos o ambiente ficava mais claro e então sua visão começava aos poucos a reagir e percebeu que havia sangue em seu braço e ao baixar os olhos notou respingos e manchas também em sua camisa. Aflito voltou os olhos para sua esposa deitada sobre a cama e como uma onda avassaladora o quadro que via começou a desenhar-se e via sangue, muito sangue e uma faca enterrada no peito de Claudia. Com um grito de desespero que parecia uma fera urrando, jogou-se sobre a esposa, clamando seu nome desesperadamente, mas, os olhos arregalados e opacos fitando além do teto do pequeno aposento, denunciavam a ausência de vida. Claudia estava morta. Seu rosto desfigurado com sinais evidentes de violência. Sentiu-se como se uma tempestade invadisse seu cérebro e novamente a visão turvava e uma sensação de amargo queimava-lhe a garganta. Buscava em sua consciência uma explicação para o que via. Quem a teria matado, onde ele estava quando isso aconteceu? Recuou cambaleante e escorando-se pelas paredes, chorava e buscava um sinal que desse uma pista, as janelas estavam trancadas, não havia sinais de arrombamento. Voltou ao quarto e sentou-se novamente com a cabeça entre as mãos. Buscou um cigarro nos bolsos e suas mãos trêmulas mal conseguiam coloca-lo na boca. Continuava sem lembrar de nada, sua mente era como um poço escuro e vazio. Permaneceu assim, imóvel por um bom tempo. Um flash de lembrança repentinamente veio a tona como um clarão, via Cláudia ao telefone falando com alguém. Olhou novamente o corpo sobre a cama, ela estava com a mesma roupa que vira no lampejo de memória. Fora morta antes de despir-se para trocá-la. Cambaleante andou até a sala e viu o fio do telefone pendendo da estante onde ficava. Neste momento outro lampejo mostrava Cláudia com os olhos arregalados, como que surpreendida ao telefone. Colocou lentamente o fone no gancho e percebeu o numero registrado no display, era do Armando, seu amigo. Sentou-se sobre o sofá e chorava convulsivamente tentando entender o que estava acontecendo. Ele amava muito a esposa e esforçava-se por fazê-la feliz. Agora um novo flash e se via sentado em uma mesa de bar onde na outra ponta a figura de Neco, seu amigo, sorvia um trago. Então aos poucos a lembrança do dia anterior vinha lentamente revelando-se em sua mente. Na medida em que ia lembrando um desespero maior começava a atormentar-lhe. Saíra mais cedo do trabalho e resolvera passar no bar para comprar cigarros e uns bombons que Cláudia adorava. Costumava fazer isso sempre. Neco sentado a uma mesa, convidou-o para um trago e ele aceitou, afinal ainda era sedo. Conversaram sobre futebol e evidentemente mulheres e Neco o convidou para conhecer umas amigas. Ele a principio recusou, mas a insistência do amigo acabou por convence-lo, afinal, que mal teria. Claro que as amigas do Neco, não eram propriamente o que se pode chamar de santas. E já os receberam com copos de cerveja gelada, o que veio a calhar em virtude do calor. À medida que a noite avançava a bebida corria solta e já haviam misturado cerveja com Vodka. Lá pelas tantas pintou um pó e depois de dois carreirinhos ele sentia-se como o próprio super homem, capaz de qualquer coisa, sentia-se acima de qualquer simples mortal. Neco deu-lhe uma carona até sua casa. Entrou pelos fundos e ouvia Cláudia falando ao telefone, aproximou-se para beija-la e ao ver o número, registrado no identificador, ficou possesso, sabia que Armando era apaixonado por Cláudia desde a época da faculdade, mas ela o preferira e notava sempre o modo como Armando a olhava e sentia um ciúme doentio.
 – Sua vagabunda, você está me traindo com o Amando! 
– Não é nada disso, ele queria falar com você! Ele tomou o fone de sua mão gritando, 
- Quero falar com esse ordinário! 
– Ele já desligou! Você está louco? O que há com você? Mas ele não a ouvia, largando o fone agarrou-a pelo braço e a arrastou para o quarto. Bateu-lhe violentamente jogando-a sobre a cama. Depois abriu a gaveta do criado mudo e desembainhou a faca que guardava ali. Enterrou em seu peito enquanto esbravejava. 
– Sua vadia! Você nunca mais vai me trair. Então um frio intenso invadiu seu coração a respiração ofegante e a boca seca as mãos trêmulas cobriram-lhe o rosto e o pesadelo veio a tona revelando-lhe a triste realidade. Agora estava tudo claro em sua mente. Não podia acreditar que aquilo era verdade, deveria ser um pesadelo louco e logo acordaria. Mas não era. Ele matara a mulher que tanto amava. Não podia acreditar que havia feito isso. Sua mente agora era um misto de terror, medo e revolta. Maldita hora em que aceitara o convite do desgraçado do Neco. Estava ainda envolto por um indescritível sentimento de culpa, quando o som do telefone o arrancou de seu martírio. Arrastou-se até a sala e mal conseguiu balbuciar um alô quase inaudível. 
– Armando? 
– Cara, onde você se meteu ontem? Quero falar com você sobre aquele terreno...Alô!... Ele não ouviu o resto. Como um autômato caminhou até o quarto, abriu a porta do guarda roupa e retirou do coldre o revolver que ganhara de seu pai. Era uma bela arma e ele a mantinha carregada. Nunca a usara, mas sempre a limpava e guardava para alguma emergência. Sentou-se na cadeira de palha, acendeu um cigarro, colocou a arma sobre o criado mudo. Pegou o celular sobre a penteadeira e ligou para a polícia, contando o que havia feito. Jogou o celular com toda a raiva no espelho sobre a penteadeira como que a querer descarregar todo o sentimento de culpa que o torturava. Depois fumou seu último cigarro, curvou-se sobre o corpo sem vida de Cláudia e beijou sua boca fria, 
- Nem posso te pedir que me perdoe! A sirene da polícia já se fazia ouvir. Olhava o corpo sem vida da mulher e sentia que sua vida tinha que terminar ali. Nunca se envolvera com drogas e nem imaginava do que esta maldição seria capaz. Agora sabia, e pagara um preço alto demais pela experiência. Esperou a campainha da porta tocar, então levou o revólver ao ouvido e apertou o gatilho.